Entrevista com Graziela Paulino, a arqueira indígena da Seleção Brasileira

Graziela-Paulino-Foto-Sandro-PereiraA conquista de Graziela Paulino (Yaci Karapãna), no início de maio, capturou a atenção da imprensa. Classificada em 1º lugar para o Pan-Americano de Lima no tiro com arco, a jovem traz na destreza dos movimentos a determinação, coragem, ousadia e responsabilidade em ser a primeira mulher indígena a compor a Seleção Brasileira.

 

As vitórias mais expressivas da amazonense de 22 anos renderam as 10 dez medalhas conquistadas desde 2014 só em campeonatos nacionais e mundiais, como os dois ouros trazidos do Campeonato Sul Americano de 2018, na Bolívia, e a prata do Grand Prix do México, este ano. Além de classificada para o Pan, Graziela disputará o campeonato mundial na Holanda, em junho, e já se prepara para agarrar uma vaga para as olimpíadas de Tokio, em 2020.

 

As brincadeiras de arco e flecha com os tios, irmãos e pai, ainda aos 11 anos, estimularam o ingresso no tiro com arco esportivo, modalidade olímpica em que muitos indígenas brasileiros se destacam. De acordo com Vicente Blumenschein, presidente da Confederação Brasileira de Tiro com Arco, quatro representantes dos povos originários já fizeram parte da seleção brasileira: Dream Braga e Nelson Silva, do povo Kambeba, e os irmãos Gustavo e Graziela Paulino, do povo Karapãna. “ É importante mostrar para o país a capacidade dos nossos indígenas de nos representar em competições internacionais. A habilidade em atirar com arco e flecha influencia positivamente na adaptação ao tiro com arco olímpico”, declara Blumenschein que, atualmente, desenvolve um projeto no Xingu para a implementação da modalidade entre crianças e jovens das comunidades indígenas.

 

Criada no sítio dos pais e em convívio com a comunidade da aldeia Kuanã desde os 10 anos de idade, Graziela é mais uma revelação do povo Karapãna para o esporte brasileiro. Além da jovem e do irmão, Gustavo Paulino, ambos arqueiros da Seleção, os Karapãna também são representados a nível nacional pelo wakeboarder Jajá do Wake, primo de Graziela.

 

Em meio à rotina de treino de seis a oito horas por dia, de segunda a sábado, em Maricá/RJ, onde se prepara para as próximas competições, Graziela concedeu entrevista à equipe de Comunicação da Funai. Na ocasião, contou sobre sua relação com o esporte e como seus resultados têm incentivado outras garotas indígenas.

 

graziela paulinoFUNAI: Como esportista e indígena, o que você teria a dizer sobre a relação dos povos indígenas com o esporte e como ela poderia ser aproveitada pelo Brasil?

 

GRAZIELA: Nós temos muita coordenação motora e, assim, em qualquer esporte a gente pode se dar bem. Temos muita facilidade para aprender e isso pode ser aproveitado em vários esportes como tiro com arco, futebol, que o pessoal lá gosta muito, vôlei, natação, canoagem e vários outros.

 

FUNAI: Qual a relação do arco e flecha praticado por vários povos indígenas e o tiro com arco esportivo?

 

GRAZIELA: Eles são bastante diferentes. No arco e flecha não tem uma técnica específica que você tenha que seguir sempre. No tiro com arco tem uma técnica certa que começa desde os pés até o momento efetivo que a gente faz o tiro. É um movimento muito repetitivo, você tem que fazer sempre igual. O que facilitou foi que nós temos muita coordenação motora. Nós vivemos livres, correndo por aí, subindo em árvore, pulando na água...e essa coordenação ajuda muito na habilidade em seguir movimentos repetitivos.

 

FUNAI: Nas comunidades Karapãna é comum as mulheres usarem arco e flecha?

 

GRAZIELA: Não é muito comum porque quem cuida mais dessa parte de caça e proteção são os homens. Mas como estamos numa época diferente da antiga, que era bem mais tradicional, agora a gente pode escolher o que a gente quer. Minha mãe é uma pessoa muito batalhadora, guerreira. Ela sempre nos educou para sermos mulheres independentes. Sempre quis que nós fizéssemos faculdade e trabalhássemos para isso, então eu fui criada assim: eu podia escolher o que queria fazer, me dedicar e fazer isso com vontade para eu me tornar independente no que eu escolhesse.

 

FUNAI: Você acha que sua atuação no esporte incentiva outras meninas indígenas a se interessarem pelo tiro com arco?

 

GRAZIELA: Eu creio que sim. No começo, as meninas ficaram um pouco retraídas para não participar. Não sei, talvez os pais não apoiaram...mas, agora, sempre que minha mãe conversa com outras meninas lá, ela fala que as garotas estão bem mais interessadas do que naquela época para participarem do esporte, fazerem o arco e flecha por lá. Assim, teve muito mais procura. Elas começaram a ir nos jogos interculturais indígenas que eles fazem para poder atirar. Creio que quando forem buscar novos atletas, com certeza terá mais meninas interessadas.

 

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