Indígena de apenas 13 anos vence 1ª etapa do Campeonato Brasileiro de Wakeboard

Jaja do Wake

A garra indígena Karapãna não deixou espaço para mais ninguém na 1ª etapa do Circuito Brasileiro de Wakeboard, em Belo Horizonte, no último final de semana (3 a 5 de maio). Jair Paulino de Souza, Jajá do Wake, de apenas 13 anos, levou o primeiro lugar na categoria Open, ligeiramente acima do avançado. Seus adversários eram todos adultos.

 

Nas pernas, a pintura dos tesumes, trançados usados para fazer a peneira, kamatá, tipiti, balaios e outros artefatos indígenas, representam sabedoria, dons e talentos. Nos braços, o desenho que remete à cobra, pressupõe agilidade. Assim Jajá chegou na competição: pronto para a batalha.

 

As altas notas mantiveram o atleta no topo da classificação do começo ao fim da competição. No alto do pódio, o adolescente indígena deu mais um passo rumo ao 13º título em sete anos de carreira. É a primeira vitória que conquista fora da categoria Júnior. 

Jaja do Wake podio.png

"Nao tive medo, só confiei", respondeu Jajá ao ser questionado sobre algum momento em que achou que poderia não ganhar. "Eu havia competido no ano passado na categoria Open, mas foi no campeonato paulista e fiquei em segundo. Dessa vez, eu acho que as manobras que fiz e que valeram mais pontos foram a Tootsie e a Wirlybird", explica o atleta se referindo a duas manobras consideradas de nível difícil.

 

Apesar de todo talento, o resultado surpreendeu até o pai inseparável, Jairo de Souza. "Achei que ele não ia passar porque a categoria Open é muito avançada, tem pessoas que andam muito. Mas ele passou e agora foi para a Pro (categoria profissional)! Eu fiquei muito feliz ao vê-lo no pódio, todo pintado. O pessoal ficou bastante admirado com ele. E é assim, mostrando a cultura, viajando, que a gente vai evoluindo cada vez mais". Sempre presente nas competições, Jairo acompanha o filho, prepara-o com meditações para acalmá-lo antes da disputa e também é responsável pelas famosas pinturas corporais do garoto.

No mesmo evento, acontecia a final do Campeonato Mundial de Wakeboard, com a presença dos 10 melhores atletas do mundo. Uma disputa entre vários países como Japão, Estados Unidos, Brasil, Austrália e Argentina. Na borda da Lagoa dos Ingleses, em Nova Lima, Belo Horizonte, Jajá assistia aos ídolos de longe, pensando nas manobras que fizeram e que quer copiar. Disputar com eles e se tornar um campeão mundial é um dos seus maiores sonhos.

Tony Carrol Jaja do Wake Nick Rapa

 

Para chegar longe, Jajá conta com o apoio dos pais, que muitas vezes abriram mão de investir em condições de vida melhores para a família, priorizando incentivar o sonho do filho. A determinação do menino também mobiliza outros atletas, que, em diversas ocasiões, já se juntaram para apoiar financeiramente a participação em competições ou nas clínicas que faz duas vezes por ano com Marreco, grande nome do wakeboard nacional, em São Paulo.

 

O único indígena a praticar wakeboard a nível competitivo inspira e incentiva outras pessoas a iniciarem no esporte. Jajá dá aulas para crianças da aldeia Yupirunga, região próxima a Manaus, e para outros interessados na modalidade que vão até às águas do rio Tarumã-Açu aprender com ele.

Foi com o auxílio dos pais, dos colegas atletas, do governo de Manaus e com recursos adquiridos em pequenas atividades que realiza que Jajá chegou ao campeonato deste ano, em Minas. Fazendo jus a todos os esforços, o campeão nacional conquistou com a vitória a mudança para a categoria Pro e já se prepara para o Campeonato Paulista em Rifaina-SP no dia 8 de junho.

 

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Kézia Abiorana

Ascom/Funai