Yaathe, a língua do misterioso mundo Fulni-ô - Especial Ano Internacional das Línguas Indígenas

fulni-o capa.jpgNordeste brasileiro, palco histórico de grandes disputas desde a colonização. As consequências são incalculáveis. Para os povos indígenas, é possível mencionar a perda de espaço físico e político, dissolução de aspectos tradicionais e tentativa de apagamento identitário.

 

No município de Águas Belas-PE, um povo mantém-se firme na jornada pela própria existência. A tenacidade dos Fulni-ô, que se perpetua por séculos, de geração em geração, parece um mistério. Há quem creia na força do Toré, dança de intensa ligação com o sagrado, para explicá-la. Outros atribuem-na ao ritual secreto do Ouricuri, retiro espiritual de três meses em que os indígenas se mudam para uma aldeia de uso exclusivo do evento e se isolam em atividades restritas à comunidade. Mas há um relevante elemento que perpassa todas as tradicionais fontes da inabalável energia Fulni-ô: o Yaathe, considerada a única língua indígena do Nordeste brasileiro que se manteve viva e imponente na sua comunidade de fala (a definição não considera as línguas dos povos do Maranhão, devido à inclusão do Estado no território compreendido pela Amazônia Legal).fabia

 

O Yaathe enfrentou pelo menos 500 anos de repressão, tendo sido até mesmo proibido durante a década de 20. A língua, além de sagrada, é também considerada entre os Fulni-ô como instrumento ou arma de proteção contra as opressões que sofreram por séculos, já que era uma maneira de não serem entendidos pelos não-índios. Por isso, o ensino da língua, assim como as informações sobre o Ouricuri, são terminantemente proibidos às pessoas de fora da comunidade.

A doutora em linguística, Fábia Fulni-ô, revela que o hermetismo cultural tem alto grau de contribuição para vitalidade da língua. "O segredo sobre a cultura, principalmente a religião, faz toda a diferença. Se a língua é essencial para a manutenção das tradições como um segredo sagrado, elas garantem seu uso e consequente manutenção. O que se quer dizer é que o Yaathe é necessário à comunidade Fulni-ô, diferentemente de outros povos que usam a língua para se comunicar apenas e, para essa função, qualquer uma serve, o que facilita a substituição da língua herdada dos ancestrais pela da cultura dominante", declara a linguista.

Hoje, para os Fulni-ô, o Yaathe é um tesouro identitário e motivo de grande orgulho. Mas foi o elevado grau de contato dos Fulni-ô com a sociedade envolvente, no município de Águas Belas, e preconceito sofrido também pela língua, que levou a comunidade à situação de bilinguismo. De acordo com Fábia, nas décadas de 70 e 80 muitos comentários se ouviam entre os Fulni-ô de que não valia a pena ensinar a língua aos filhos. Mas os esforços de professores e anciãos que, com muito respeito, prezam pela manutenção das tradições e do Yaathe, fizeram com que a comunidade passasse por uma espécie de renascimento cultural.Fulni-o

 

Na Terra Indígena Fulni-ô, as crianças têm acesso ao Yaathe pelo contato com os familiares. Mas é na escola que se dá o aprendizado sistematizado da língua. A inclusão do estudo do Yaathe na matriz curricular de ensino e oficialização do seu uso na escola, em 2010, é resultado da árdua luta dos professores da aldeia e do então cacique João de Pontes

 

A língua é apreendida não só dentro da sala de aula, mas no aprendizado dos cantos tradicionais ensinados na escola e praticados na comunidade. Dessa forma, as crianças internalizam o Yaathe a partir do uso funcional.

Os cantos também são usados no aprendizado da escrita. De acordo com Fábia Fulni-ô, apesar de a língua ter sido registrada e estudada por antropólogos desde a década de 30, aproximadamente, apenas a partir da década de 90 a escrita passou a ser introduzida. "Mesmo com algumas tentativas de padronização, ainda se escreve muito foneticamente. É usada na escola, mas falta um instrumento de sistematização, como dicionário e materiais didáticos sistemáticos", ressalta.

Fea TothdoaCinema: uma ferramenta inesperada

Atualmente, muitos são os instrumentos que corroboram para a manutenção do Yaathé entre os Fulni-ô: cantos, festas, a imersão no período do Ouricuri, ninhos de língua e até mesmo uma rádio comunitária toda apresentada na língua. Mas uma ferramenta de peso, inserida entre o povo há 8 anos, cada vez mais se destaca: o cinema.

 

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