ENTREVISTA: Sandra Terena, Secretária de Políticas de Promoção de Igualdade Racial do Brasil

 

Ascom Funai - A senhora já teve trabalhos relacionados a povos indígenas, quilombolas e pescadores. De que modo acredita que o contato com esses grupos diversos pode favorecer seu trabalho à frente da Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial?

 

Sandra Terena - Favorece no sentido de ter havido contato com as comunidades que estão nas pontas, no sentido de ir até esses locais e conhecer a situação real daquelas pessoas. Esse trabalho in loco abre a nossa mente e nos instiga a pensar quais são as formas que a gente pode trabalhar para que essas comunidades tenham uma qualidade de vida melhorada. 

 

Ascom Funai - Já há um esboço de quais ações devem continuar e quais serão iniciadas pela pasta? Em especial, para os povos indígenas.

 

Sandra Terena - Nosso intuito é manter as políticas e os direitos já assegurados, voltados à população negra, mas também ampliar o enfoque de trabalho para os povos indígenas, ciganos e demais povos étnicos. Uma das ações que vejo como muito bacana é o Programa Juventude Viva, que é um trabalho que tem como foco o jovem negro, e acredito que merece destaque por termos uma população afrodescendente bastante numerosa no país, que costuma ser uma das parcelas mais vulneráveis da sociedade. Vejo que a gente precisa dar continuidade a esse projeto. Falando de jovens ainda, uma questão muito sensível que acreditamos que precisa ser trabalhada é a do suicídio indígena, então é uma questão que a gente quer atuar seriamente no sentido de mitigar essa mazela social. E também trabalhar junto aos povos ciganos. A gente está trazendo um diretor que é de origem cigana, para que essas populações também se sintam representadas.

 

Ascom Funai - Entre 2013 e 2018, a senhora teve uma experiência na administração pública, quando foi diretora de Mobilidade Urbana no município de Curitiba. Paralelo a isso, atuou nas Conferências Municipais de Direitos Humanos, nas temáticas de igualdade racial e de pessoas com deficiência. De que maneira essa vivência recente pode ser aproveitada nesse seu novo momento e quais políticas discutidas naquele cenário a senhora acredita que podem se tornar nacionais?

 

Sandra Terena - Foi uma vivência importante, porque eu pude ter contato com vários seguimentos pela primeira vez. De modo geral, eu vejo que os problemas que Curitiba enfrenta não são muito diferentes dos problemas do resto do país. A questão do preconceito, que é muito presente. Na segunda-feira (21), a gente teve o Dia Nacional de Combate à Intolerância, o que nos remete ao fato de que esse é um problema que deve ser combatido nacionalmente. Fortalecer políticas públicas no sentido de valorização do respeito às diferenças e religiões, principalmente as de matriz africana, recorrentemente vitimadas pela violência, deve ser uma bandeira de todos. O contato com as políticas para pessoas com deficiência foi também de grande valia nesse processo, desde as coisas mais básicas, como pensar a questão da acessibilidade, das vagas específicas no estacionamento. Porque são políticas que priorizam o dever do Estado com o cidadão, independentemente da origem ou condição.

 

Ascom Funai - Em geral, nas suas aparições públicas, a senhora está sempre caracterizada com indumentárias indígenas. Gostaria que falasse um pouco sobre essa escolha.

 

Sandra Terena - Eu gosto muito desse cocar – apontando para o ornamento em outro local da sala. Inclusive, brinco com meu pai, porque no Povo Terena, o adereço de cabeça das mulheres é diferente. E esse cocar era utilizado pelo meu pai. Ele, por mais de 30 anos, sempre foi uma grande liderança. Fazia um trabalho com várias comunidades do litoral do Paraná e sempre foi muito respeitado. Numa certa ocasião, precisei ir a um evento em Curitiba, e achei importante pedir o cocar emprestado. Eu até brinco com ele que, quando uso o cocar, ele passa o poder do meu pai para mim. É um símbolo que traz bastante representatividade. É como se meu pai me empoderasse e desse a permissão de continuar a missão dele. Para mim carrega uma simbologia muito grande e eu uso com bastante respeito. Além do carinho por também remeter a meu pai.

 

Ascom Funai - Você gostaria de deixar alguma mensagem para as populações indígenas?

 

Sandra Terena – É importante que nós, povos indígenas, procuremos, sempre que possível, estudar, nos informar, ter muita força de vontade, não desanimar. Falo por mim mesmo. Para hoje estar aqui, me formar, enfim, ter oportunidades e realizar trabalhos relevantes, foi graças ao estudo. Então, acredito que é importante se capacitar, estudar, fazer cursos... isso é fundamental. Para a gente melhorar como pessoa, mas também para ter contato com outras realidades. Acredito que isso é essencial para a gente fazer a diferença. Eu vejo na aldeia dos meus parentes. Uma prima que fez Enfermagem e trabalha no posto de saúde da própria aldeia, um primo que fez Farmácia com Bioquímica, então é muito gratificante perceber que existe toda uma geração seguindo esse caminho. Na minha família, fui a primeira a possuir uma graduação, então me faz feliz ver que tem outras pessoas se formando e atendendo à própria comunidade. Isso é gratificante e a gente precisa que isso se amplie cada vez mais.

 

Vagner Campos

Assessoria de Comunicação/Funai

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